O que há de errado com as relações amorosas? Pegou algumas folhas, fechou os olhos e sabia que, naquelas poucas linhas, apresentaria todas as respostas. Assim desejava.
Declarou seu fracasso quando pediu respostas. Sentiu olhos mareados ao te-las, afinal, essa coisa de transformar emoção em razão dói as pencas. Transformar sentimento em razão, não é apenas uma troca de lugar. Não é apenas uma troca de linguagem. É, sobretudo, um luto. A morte de um ideal que se faz a revelia do que pensávamos.
Ai surge algo tão real que te toma tonto. Que te põe a dois passos de todas as respostas que você precisa. Sabe o que se faz? Passos para trás, afinal, ter as respostas não é bem assim.
Solto letras nesse papel, presas em alguma coisa que não sei o que. Nem penso o que escrevo. As palavras vão para a tela do computador antes mesmo de passar pela minha consciência. Parece até que consciência é uma via obrigatória. Não me surpreenderia se ela nem existisse.
Acho que preciso disso: de soltar tantas palavras que limpem minha mente e que deem vazão para o que há de mais limpo da minha vontade de escrever.
Mais de um mês sem um parágrafo completo escrito com concordância, com preocupação estética, com cuidado. Maria Bethânia, agora canta, “estou com saudade de tu, meu desejo”. E eu me pergunto: qual foi meu desejo nesse mês sem palavras?
Encontros, desencontros, lágrimas, risos, álcool, drogas, avanços, retrocessos. Perdido num baú de tantas possibilidades que me reconhecia em cada pedacinho delas, e assim, não soube direito onde estava. Será?
Sigo escrevendo e resisto a vontade de ler o parágrafo anterior. E como será que esse texto ficará? Diverso, desconexo, distinto, diferente, difícil, divagações, di. Essa coisa que eu tenho de escrever somente em fases sós me assusta tanto que nem penso sobre isso. Nem lembro de pensar.
Quando escrevo vejo pessoas em pensamento. Ouço músicas. Textos são músicas sem melodias, sem riso. E eu queria ter escrito ritmo. Ou não. Meus textos tem ritmo. Assim desejo. Esse por exemplo poderia ser um blues. Um grande improviso. Mas quando fecho os olhos ouço algo que deve ser Bethoven. Como uma música acelerada-desacelerada-que-se-transformaria-facilmente-num-grito-de-alívio.
Escrevo com meu corpo. Passo as mãos pelo corpo e me sinto, quase que em transe. Descanso as mãos e a mente me tocando e lembrando que existo, em corpo, ato, consciência. As vezes digito olhando para cima para me surpreender com a estética das linhas. Como será que as palavras se organizaram? Ficaram bonitas assim, postas lado a lado, nessa fonte, nesse texto, nessa catarse literária?
Vontade de fechar os olhos e deixar levar-se nesse ritmo, nessa avalanche de palavras ao acaso, tão ansiosas quanto eu para vir para o texto e se tornar o que pode e merece ser visto. Engraçada essa vida das palavras tão semelhante com a minha. Todas ali, prontas para acontecer, apenas prontas. Em potencial, mas sempre em dúvida. Será que chega a minha vez? Pensa a letra em ressonância na minha cabeça.
Há palavras que duelam entre si e as que se confortam. Há palavras que foram feitas uma para a outra por exemplo e por favor, por exemplo. Há outras palavras que foram cruzadas no meio da história e jamais se separaram. Salvador e Dalí, Romeu e Julieta, Você e eu. Eu minúsculo, de propósito.
Para que respostas afinal, se são as dúvidas que nos põem em movimento? Duvido, logo existo, teria sido uma expressão mais acertada. Falta algo, logo existo, teria sido mais verdadeira e, por fim, Sou faltante, logo existo, nos acalentaria e não serviria para nada.