Então, nos falamos… Beijos!

5 Jul

O olhar estava paralisado, fitando a água da torneira que escorria pelo ralo. Tudo que sua consciência não continha era a preocupação com a água que se perdia. Nunca gostou de acordar cedo e não era a partir daquele dia que passaria a gostar. Enquanto escovava os dentes, a água escorria, o vapor do chuveiro ligado começava a tomar conta do banheiro. Seu corpo ainda estava morno, recém saído da cama. Cospe o creme dental, lembra-se da torneira, tira a única peça de roupa e entra no chuveiro.

Seu mau humor típico dos primeiros minutos da manhã não estava tão exacerbado. Pudera, depois de viver aquela noite com ares de novelas de Jorge Amado é natural que o corpo lhe dissesse que a vida também tinha prazeres. Experimenta a temperatura do banho colocando o pé debaixo do chuveiro. Como sempre, a água está quente demais. Abre um pouco mais o registro e entra no banho, de uma vez só. Pudera, o frio daquela manhã e as gotinhas de água que respigavam do piso, já começavam a causar algum arrepio.

O protocolo inicia da mesma forma: a água alcança primeiramente as costas, como se no chuveiro buscasse o aconchego da noite anterior. Fica paralisado, a ducha fixa na nuca. O pensamento divaga entre os compromissos do dia, e se perde no fim do dia anterior. Lembra dela chegando na sua casa, vestida a rigor, com a sensualidade de um jeans justo e o despojamento daquela blusa que marcava de leve os seios e deixava a mostra um único ombro. Quando lembra da sensualidade com que ela sorria, sente seu corpo se excitar. Há tempos que alguém não lhe causava tantas lembranças.

Nos últimos tempos, elas já não lhe tomavam a memória. Em tempos de amores líquidos, de entregas gratuitas, as descobertas sem surpresa já lhe aborreciam mais do que o agradavam. A água do banho molha os cabelos e escorre pelo corpo empurrando a espuma do shampoo. Ligar para ela logo pela manhã seria um grande equívoco. Ela era daquelas mulheres independentes, dessas que se entregam na medida certa. Não aceitava os comentários dele sobre o filme que assistiram, abraçados, e os discutia com uma retórica tão limpa e sutil quanto seus gestos.

“Sou um idiota!” Racionaliza enquanto o sabonete exorciza todas as possibilidades dele sentir novamente o perfume dela. Era mesmo um idiota por pensar que aquele banho levaria consigo seus pensamentos. “Vou mandar uma mensagem no início da tarde, apenas por educação.” Se fizesse, sabia que não era por educação que o faria, mas precisava acreditar que sim. Das poucas outras vezes que sentira isso, era assim que havia resolvido. Apaixonar-se não era seu objetivo naquele momento. Havia muito o que ser feito. Questões urgentes aos quais só seriam prejudicadas por uma paixão efusiva.

A mão direita posta sobre o registro do chuveiro e lembra-se que precisava se barbear. Há 3 dias que não o fazia, a pedido dela. E agora? E se houver um novo encontro? Lembra de quando, abraçados, ouviram Gal cantar “eu, você, nós dois…” e ela aproveitara o intervalo entre as estrofes para dizer que a barba dele a deixava arrepiada. Lembra de como Gal cantou com maior intensidade durante o beijo que seguiu o comentário.

Tira a barba e se corta ao barbear. Apenas mais um corte. Era o que ele poderia fazer para se vingar.

Essa não foi sua última lembrança durante todo aquele dia. Os dias seguintes também trouxeram lembranças, acentuadas nas noites. Já haviam músicas que ele não poderia ouvir sem lembrar daquela noite. Não ligou para ela no dia seguinte. Nem nos próximos. Queria mesmo se afastar. Ora, por qual motivo se reconheceria naquela paixão? Talvez ela tenha esperado uma ligação, uma mensagem, algum sinal de que pra ele também tinha sido ótimo. Ela se resguardou na crença de que os homens têm medo de mulheres como ela. Ele se escondeu atrás daquele corte. Se houve um novo encontro não se sabe. Acho pouco provável porque ela não aceitaria ser tratada daquela forma e porque ele não colocaria a risco seu aparato de certezas.

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15 Respostas to “Então, nos falamos… Beijos!”

  1. @avsjunior79 Julho 5, 2010 às 1:05 am #

    Comentar um texto de um autor que se é fã não é fácil, para não cair na mesmice e nem na provável rasgação de seda. Como sempre, parabéns, linda a maneira como escreve e de fato, inpirador! Parabéns!!!

    • contem1drama Julho 5, 2010 às 7:22 pm #

      Fã?! Inspirador?! Não está lembrando de onde surgiram meus primeiros textos?! Obrigado, Junior!

  2. Sabrina Julho 5, 2010 às 1:11 am #

    ADOREI! Simples, diretor e muuuuito REAL!!!

  3. Mau Julho 5, 2010 às 3:46 am #

    O Ju disse tudo. Elogiar o texto de quem se é fã, é cair no lugar comum. Mas realmente ficou brilhante a maneira como vc colocou os fatos… impossível não se identificar ao menos com uma parte dele!

    E essa coisa de não haver um “felizes para sempre”, me lembrou o filme 500 Dias Com Ela, que me fez pensar da mesma forma: seriam os relacionamentos complexos demais, ou a gente anda dificultando demais nossas relações?

    Parabéns pelo texto, meu querido! =D

    • contem1drama Julho 5, 2010 às 7:24 pm #

      Tenho mesmo que assistir esse filme, não é?!

      Não sei se estamos os tornando complexos ou simples demais!

      Certa vez li que para toda questão complexa existe uma resposta simples… e errada! Talvez estejamos investindo demais na simplicidade, ou não! Sei lá!

      Obrigado Mauz

  4. desy Julho 5, 2010 às 6:42 pm #

    Me identifiquei! Não por nada, paixões efusivas realmente só vem pra atrapalhar muita coisa, e bagunçar tudo.. mas.. qual é a graça de uma vida organizada? E qual seria a graça de entrar no chuveiro, e quando a ducha fixa na nuca não ter uma noite de ontem pra lembrar?
    Não sei, mas acho válido todo corte com lâmina de barbear pra manter o equilibrio, que nada mais é esse cai-e-levanta de lembranças e amores.. líquidos ou não.

    Beijo Max! Arrasooooou!

    • contem1drama Julho 5, 2010 às 7:26 pm #

      Desy, vc me lembra uma pessoa muito especial: Poliana !!! HAHAHAHAH
      Certeza que vc está vivendo uma paixão caliente e sórdida !!! HAHAH
      Mas concordo com você sobre a validade dos cortes de lâmina para manter o equílibrio!

      Mas, ó, deixa eu dizer: Abre o olho, amiga OCA !!!
      HAHAHAHH

      Beijos e obrigado

  5. Fran Julho 7, 2010 às 2:25 am #

    ok, joia, tá…
    Não sei pq, mas me identifiquei um pouquinho (quase nada)com a mulher descrita no teu texto. Ufa, agora tenho outras desculpas por não receber ligações no dia seguinte. ahhhahah
    😉
    Beijo pro autor delícia. 😀

  6. Dani Julho 7, 2010 às 10:12 pm #

    Ai que lindo Maxxxxxx! E quanta sensibilidade nas descrições! Adorei =~ To com a Fran, deve ser por isso que não nos ligam! huahauhauh
    Fiquei curiosa por saber o que poderia ser feito pra que o desfecho dessa história real fosse outro…
    beijos

    • contem1drama Julho 8, 2010 às 1:49 am #

      Acho que o desfecho estaria justamente na coragem da ligação do dia seguinte! A questão é: como possibilitar que ela aconteça?!? Pois é, também não sei !!!

  7. RODRIGO Julho 8, 2010 às 5:47 am #

    caracas…gosto muito de ler,,, vc me impressionou com esse texto, leve no sentido de fácil entendimento, direto no qual mostra a relação e suas “complicações”..esta de parabéns, vou ler sempre,,,,,

  8. Fabiano Vianna Julho 10, 2010 às 2:41 pm #

    O nome do blog é muito bom cara. A psicologia deve te inspirar a desenvolver muitas crônicas! Parabéns! Abração

  9. Diego Julho 12, 2010 às 1:54 am #

    “Apaixonar-se não era seu objetivo naquele momento. Havia muito o que ser feito. Questões urgentes aos quais só seriam prejudicadas por uma paixão efusiva.”

    Me identifiquei demais nesse trecho…

    Meu caro, seus textos são ótimos, dão prazer em ler. Difícil elogiar sem cair na redundância. Parabéns pela criatividade, pelo dom de saber usar as palavras de forma envolvente.

  10. Thainá Setembro 30, 2010 às 7:45 pm #

    E eu aqui esperando o outro encontro…será que é por que eu realmente estou esperando essa mensagem?

  11. Lísia Novembro 12, 2010 às 11:11 pm #

    Estou realmente impressionada. Não poderia ter escolhido ler essas crônicas em um dia melhor… me vem um clichê que tem guiado a minha vida “nada é por acaso”.
    Amei saber que não sou só eu que me “corto” para me equilibrar.
    Inspirador.

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