Átimo

23 Set

Acendeu um cigarro. Era muito mais que um cigarro, e não há a menor dúvida disso. Na fumaça do cigarro sentia o gosto da transgressão que propusera experimentar. Fumava escondido e sabia que mais uma vez, ainda que numa transgressão, optava pela segurança. Brincava com o cigarro nos dedos ensaiando poses. Qual maneira de segurar é mais intimidadora? Pra onde deveria olhar quando soltava a fumaça? O que será que as pessoas pensariam quando o vissem fumando?

Não percebia que nunca fumou porque quis. A verdade é que fumou porque não quis. Não quisera acreditar que era somente tudo aquilo que todos esperavam que fosse. Cada cigarro era um átimo onde emergia mais um daqueles eus que ele ainda desconhecia. Afinal, é agradável flertar com esse outro que no final das contas é você mesmo.

Fumar o colocava em suspensão. A fumaça ia circulando seu corpo e quando subia anunciava que não era permitido se aproximar. Lá de cima, lhe contava segredos de um futuro que poderia ser diferente. Fumar era se preencher com um alguém que gostava de ser, mas que não precisava ser o tempo todo. Talvez seja melhor dizer que não suportava ser o tempo todo.

Acender um cigarro era experimentar uma subversão de cartas marcadas.

Acender mais um? São vinte ao todo, já foram sete. A semana ainda tem três dias, vezes uma média de três cigarros por dia… Poderia acender mais um. Abriu a mochila, escondeu o cigarro e o isqueiro e seguiu caminhando. Sabe que não acendeu o segundo cigarro porque esvaziar aquela carteira significava muito mais do que ter de comprar outra. Ainda havia treze átimos, disponíveis, intensos, esperando para serem usados em momentos mais urgentes que aquele.

Fumava, não desejava que o levassem a sério, nem o levassem a mal. Desejava que o levassem de leve, como a fumaça de um cigarro. Já adulto, quase casado, se sentia adolescente ao ter que se esconder para fumar um átimo de conforto. Era entusiasmante se sentir adolescente, e por isso mesmo, sentia-se culpado. E no final das contas, o que aquela turva fumaça queria lhe dizer é que não era mais possível viver como quem lê um romance do qual já conhece todos os detalhes do final.

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2 Respostas to “Átimo”

  1. @dudera Setembro 24, 2010 às 12:51 am #

    Putz que medo, descreveu perfeitamente! Muito bom ^^

  2. Thainá Setembro 30, 2010 às 7:16 pm #

    Até então eu não sabia como explicar o porquê de ter começado a fumar e, mesmo sem consistir em um vício, continuar fumando escondido quando já sou adulta pra decidir sobre meus próprios passos. A sensação é exatamente o que foi descrito.

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