7 Fev

Contava que a vida era cheia de obstáculos e surpresas, mas aí não havia nenhuma novidade. Corria o mundo e tudo o que tinha carregava nas costas. É bem verdade que, dentro da mochila cabiam apenas as roupas, livros e um pouco de comida. As alegrias, culpas, arrependimentos e um jogo imenso de certezas a serem verificadas carregava dentro de si.

Escrevia coisas num caderno, todos os dias, e contava de como a vida era quase-mágica longe do lugar de onde veio. Dizia que as pessoas eram todas amigas, que passar pouco tempo em cada um dos lugares impossibilitava conhecer o lado não tão bom daqueles que conhecia.

Em cada parada uma comida diferente, mas para usar uma metáfora já muito usada, se alimentava com outras coisas. Aprendeu a comer sentado na grama e a comer o que jamais pensou comer. E aí já havia alimento para um bom tempo.

Nas camas que dormiu, nem sempre só, descobriu que nem todas as noite são iguais e, bom mesmo era quando percebia que todos os dias foram diferentes.

Quando só, ouviu músicas. As mais diversas. Assim, sentia-se de algum modo, perto de quem lhe faltava. Dizia que as músicas não são perecíveis e também sabia que elas eram apenas adornos que recordavam sentidos e significados, deveras controversos, mas quase sempre afetivamente muito fortes.

Estudou a história dos lugares por onde passou, mesmo sabendo que os livros são todos repletos de ideologias, quase-fantasias-românticas de alguém apaixonado o suficiente por seu país para bancar o desejo de (de)escrever sua história.

Nas vezes em que descobriu novos lugares, se espantou com a grandiosidade do mundo, já anunciada. Contudo, aprendeu que maior que os edifícios históricos foi a força daqueles que os construíram.

Esteve longe, muito longe, e descobriu que aqueles que dizem que o mundo é pequeno, jamais conheceram a dor da distância. Mais que isso, descobriu que distância e ausência tem significados tão diferentes quanto desejo e possibilidade.

Ao fim, regressou firme e mais leve, uma vez que perdeu boa parte do jogo de certezas que carregava nas costas. Constatou que talvez não seja possível ser um estrangeiro estando em outro país, apenas. Dito assim, diriam que está louco, mas o que queria dizer é que é necessário experimentar-se estrangeiro em si mesmo. Descobrir, estranhar, explorar, descrever e guardar apenas pequenas recordações de todas aquelas coisas grandiosas, afinal, sempre necessitamos espaço para novas terras.

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3 Respostas to “”

  1. pedro philippe Fevereiro 7, 2011 às 11:34 pm #

    delícia de leitura ( ;

    • Lísia Fevereiro 8, 2011 às 3:25 pm #

      Chorei…
      Nunca tive essa experiência, embora tenha sempre almejado tê-la (e continue almejando)… porém, sinto como se tu tivesse tirado os sentimentos de dentro de mim e de toda a idealização que faço do “mundo lá fora”.

      As tuas crônicas mereciam um livro. As tuas palavras falam para as almas e não tem como não se identificar.

      Booom te ter de volta!!!

  2. Thainá Março 4, 2011 às 2:05 pm #

    Contém 1 drama, um sofrimento, uma libertação, um reconhecimento, um reencontro, uma alegria, uma saudade, uma descoberta.. contém infinitos sentimentos que são passados com clareza e vivacidade para nós que, mesmo longe, acompanhamos um pouquinho dos seus passos..

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