Arquivo | Junho, 2011
23 Jun
Escrevia correndo histórias. Suas palavras desciam ladeiras decadentes e subiam íngremes penhascos. Palavras que imitavam uma vida que via assim: quando descia não via muita beleza, quando subia achava tudo muito difícil e exaustivo. As palavras eram passos difíceis, exigiam sincronia, um cuidado intenso para construir um caminho com elegância. Queixava-se dos desequilíbrios, dos desvios e tropeços. Cada palavra precisava abraçar sua irmã mais próxima com carinho e força.

 

Às vezes achava as palavras traiçoeiras, pequenas mentirosas enganadoras dos sentidos. Rainhas de copas travestidas de pobres coitadas.  Sabia que havia palavras suaves e ingênuas como o sonho de Natal de uma criança. No final das contas, palavras eram frutos que colhia aos poucos em épocas não muito claras.

 

Quando descia as ladeiras tomava as palavras do vento, buscando letras escondidas atrás das portas. Em passos largos e que o faziam lembrar o joelho cansado agarrava palavras que lhe batiam a cara, descobria novos olhos, abria janelas de Machado, Neruda e Gabriela sem permissão.

 

Quando subia penhascos era nelas que se agarrava. Seu suor saia em letras, escorria pelo rosto e quando chegava à boca lhe contava dos sabores da subida. Gostava de apresentar palavras que não se conheciam. Foi assim que construiu um arsenal de metáforas. Desenhou conexões entre palavras e as chamou de sentidos. Sempre se indignou quando perdeu os sentidos e não se dava conta do quanto eles eram frágeis.

 

Em dez minutos era capaz de subir penhascos, descer ladeiras, lamentar perdas de sentidos e sentir sabores ácidos e doces. Era isso que o fascinava no mundo das letras. Embora nunca tenha entendido porque só conseguia fazer esse percurso sozinho, agora queria aprender a fazer tudo isso sabendo que há alguém olhando de longe e esperando sua volta.

 

Concluia que a vida, perto das letras ou não, era um pouco disso: ir e voltar e saber que na ausência se faz a vontade de estar perto.