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23 Jun
Escrevia correndo histórias. Suas palavras desciam ladeiras decadentes e subiam íngremes penhascos. Palavras que imitavam uma vida que via assim: quando descia não via muita beleza, quando subia achava tudo muito difícil e exaustivo. As palavras eram passos difíceis, exigiam sincronia, um cuidado intenso para construir um caminho com elegância. Queixava-se dos desequilíbrios, dos desvios e tropeços. Cada palavra precisava abraçar sua irmã mais próxima com carinho e força.

 

Às vezes achava as palavras traiçoeiras, pequenas mentirosas enganadoras dos sentidos. Rainhas de copas travestidas de pobres coitadas.  Sabia que havia palavras suaves e ingênuas como o sonho de Natal de uma criança. No final das contas, palavras eram frutos que colhia aos poucos em épocas não muito claras.

 

Quando descia as ladeiras tomava as palavras do vento, buscando letras escondidas atrás das portas. Em passos largos e que o faziam lembrar o joelho cansado agarrava palavras que lhe batiam a cara, descobria novos olhos, abria janelas de Machado, Neruda e Gabriela sem permissão.

 

Quando subia penhascos era nelas que se agarrava. Seu suor saia em letras, escorria pelo rosto e quando chegava à boca lhe contava dos sabores da subida. Gostava de apresentar palavras que não se conheciam. Foi assim que construiu um arsenal de metáforas. Desenhou conexões entre palavras e as chamou de sentidos. Sempre se indignou quando perdeu os sentidos e não se dava conta do quanto eles eram frágeis.

 

Em dez minutos era capaz de subir penhascos, descer ladeiras, lamentar perdas de sentidos e sentir sabores ácidos e doces. Era isso que o fascinava no mundo das letras. Embora nunca tenha entendido porque só conseguia fazer esse percurso sozinho, agora queria aprender a fazer tudo isso sabendo que há alguém olhando de longe e esperando sua volta.

 

Concluia que a vida, perto das letras ou não, era um pouco disso: ir e voltar e saber que na ausência se faz a vontade de estar perto.

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7 Fev

Contava que a vida era cheia de obstáculos e surpresas, mas aí não havia nenhuma novidade. Corria o mundo e tudo o que tinha carregava nas costas. É bem verdade que, dentro da mochila cabiam apenas as roupas, livros e um pouco de comida. As alegrias, culpas, arrependimentos e um jogo imenso de certezas a serem verificadas carregava dentro de si.

Escrevia coisas num caderno, todos os dias, e contava de como a vida era quase-mágica longe do lugar de onde veio. Dizia que as pessoas eram todas amigas, que passar pouco tempo em cada um dos lugares impossibilitava conhecer o lado não tão bom daqueles que conhecia.

Em cada parada uma comida diferente, mas para usar uma metáfora já muito usada, se alimentava com outras coisas. Aprendeu a comer sentado na grama e a comer o que jamais pensou comer. E aí já havia alimento para um bom tempo.

Nas camas que dormiu, nem sempre só, descobriu que nem todas as noite são iguais e, bom mesmo era quando percebia que todos os dias foram diferentes.

Quando só, ouviu músicas. As mais diversas. Assim, sentia-se de algum modo, perto de quem lhe faltava. Dizia que as músicas não são perecíveis e também sabia que elas eram apenas adornos que recordavam sentidos e significados, deveras controversos, mas quase sempre afetivamente muito fortes.

Estudou a história dos lugares por onde passou, mesmo sabendo que os livros são todos repletos de ideologias, quase-fantasias-românticas de alguém apaixonado o suficiente por seu país para bancar o desejo de (de)escrever sua história.

Nas vezes em que descobriu novos lugares, se espantou com a grandiosidade do mundo, já anunciada. Contudo, aprendeu que maior que os edifícios históricos foi a força daqueles que os construíram.

Esteve longe, muito longe, e descobriu que aqueles que dizem que o mundo é pequeno, jamais conheceram a dor da distância. Mais que isso, descobriu que distância e ausência tem significados tão diferentes quanto desejo e possibilidade.

Ao fim, regressou firme e mais leve, uma vez que perdeu boa parte do jogo de certezas que carregava nas costas. Constatou que talvez não seja possível ser um estrangeiro estando em outro país, apenas. Dito assim, diriam que está louco, mas o que queria dizer é que é necessário experimentar-se estrangeiro em si mesmo. Descobrir, estranhar, explorar, descrever e guardar apenas pequenas recordações de todas aquelas coisas grandiosas, afinal, sempre necessitamos espaço para novas terras.

Catarse

12 Nov

O que há de errado com as relações amorosas? Pegou algumas folhas, fechou os olhos e sabia que, naquelas poucas linhas, apresentaria todas as respostas. Assim desejava.

Declarou seu fracasso quando pediu respostas. Sentiu olhos mareados ao te-las, afinal, essa coisa de transformar emoção em razão dói as pencas. Transformar  sentimento em razão, não é apenas uma troca de lugar. Não é apenas uma troca de linguagem. É, sobretudo, um luto. A morte de um ideal que se faz a revelia do que pensávamos.

Ai surge algo tão real que te toma tonto.  Que te põe a dois passos de todas as respostas que você precisa. Sabe o que se faz? Passos para trás, afinal, ter as respostas não é bem assim.

Solto letras nesse papel, presas em alguma coisa que não sei o que. Nem penso o que escrevo. As palavras vão para a tela do computador antes mesmo de passar pela minha consciência. Parece até que consciência é uma via obrigatória. Não me surpreenderia se ela nem existisse.

Acho que preciso disso: de soltar tantas palavras que limpem minha mente e que deem vazão para o que há de mais limpo da minha vontade de escrever.

Mais de um mês sem um parágrafo completo escrito com concordância, com preocupação estética, com cuidado. Maria Bethânia, agora canta, “estou com saudade de tu, meu desejo”. E eu me pergunto: qual foi meu desejo nesse mês sem palavras?

Encontros, desencontros, lágrimas, risos, álcool, drogas, avanços, retrocessos. Perdido num baú de tantas possibilidades que me reconhecia em cada pedacinho delas, e assim, não soube direito onde estava. Será?

Sigo escrevendo e resisto a vontade de ler o parágrafo anterior. E como será que esse texto ficará? Diverso, desconexo, distinto, diferente, difícil, divagações, di. Essa coisa que eu tenho de escrever somente em fases sós me assusta tanto que nem penso sobre isso. Nem lembro de pensar.

Quando escrevo vejo pessoas em pensamento. Ouço músicas. Textos são músicas sem melodias, sem riso. E eu queria ter escrito ritmo. Ou não. Meus textos tem ritmo. Assim desejo. Esse por exemplo poderia ser um blues. Um grande improviso. Mas quando fecho os olhos ouço algo que deve ser Bethoven. Como uma música acelerada-desacelerada-que-se-transformaria-facilmente-num-grito-de-alívio.

Escrevo com meu corpo. Passo as mãos pelo corpo e me sinto, quase que em transe. Descanso as mãos e a mente me tocando e lembrando que existo, em corpo, ato, consciência. As vezes digito olhando para cima para me surpreender com a estética das linhas. Como será que as palavras se organizaram? Ficaram bonitas assim, postas lado a lado, nessa fonte, nesse texto, nessa catarse literária?

Vontade de fechar os olhos e deixar levar-se nesse ritmo, nessa avalanche de palavras ao acaso, tão ansiosas quanto eu para vir para o texto e se tornar o que pode e merece ser visto. Engraçada essa vida das palavras tão semelhante com a minha. Todas ali, prontas para acontecer, apenas prontas. Em potencial, mas sempre em dúvida. Será que chega a minha vez? Pensa a letra em ressonância na minha cabeça.

Há palavras que duelam entre si e as que se confortam. Há palavras que foram feitas uma para a outra por exemplo e por favor, por exemplo. Há outras palavras que foram cruzadas no meio da história e jamais se separaram. Salvador e Dalí, Romeu e Julieta, Você e eu. Eu minúsculo, de propósito.

Para que respostas afinal, se são as dúvidas que nos põem em movimento? Duvido, logo existo, teria sido uma expressão mais acertada. Falta algo, logo existo, teria sido mais verdadeira e, por fim, Sou faltante, logo existo, nos acalentaria e não serviria para nada.

 

 

Átimo

23 Set

Acendeu um cigarro. Era muito mais que um cigarro, e não há a menor dúvida disso. Na fumaça do cigarro sentia o gosto da transgressão que propusera experimentar. Fumava escondido e sabia que mais uma vez, ainda que numa transgressão, optava pela segurança. Brincava com o cigarro nos dedos ensaiando poses. Qual maneira de segurar é mais intimidadora? Pra onde deveria olhar quando soltava a fumaça? O que será que as pessoas pensariam quando o vissem fumando?

Não percebia que nunca fumou porque quis. A verdade é que fumou porque não quis. Não quisera acreditar que era somente tudo aquilo que todos esperavam que fosse. Cada cigarro era um átimo onde emergia mais um daqueles eus que ele ainda desconhecia. Afinal, é agradável flertar com esse outro que no final das contas é você mesmo.

Fumar o colocava em suspensão. A fumaça ia circulando seu corpo e quando subia anunciava que não era permitido se aproximar. Lá de cima, lhe contava segredos de um futuro que poderia ser diferente. Fumar era se preencher com um alguém que gostava de ser, mas que não precisava ser o tempo todo. Talvez seja melhor dizer que não suportava ser o tempo todo.

Acender um cigarro era experimentar uma subversão de cartas marcadas.

Acender mais um? São vinte ao todo, já foram sete. A semana ainda tem três dias, vezes uma média de três cigarros por dia… Poderia acender mais um. Abriu a mochila, escondeu o cigarro e o isqueiro e seguiu caminhando. Sabe que não acendeu o segundo cigarro porque esvaziar aquela carteira significava muito mais do que ter de comprar outra. Ainda havia treze átimos, disponíveis, intensos, esperando para serem usados em momentos mais urgentes que aquele.

Fumava, não desejava que o levassem a sério, nem o levassem a mal. Desejava que o levassem de leve, como a fumaça de um cigarro. Já adulto, quase casado, se sentia adolescente ao ter que se esconder para fumar um átimo de conforto. Era entusiasmante se sentir adolescente, e por isso mesmo, sentia-se culpado. E no final das contas, o que aquela turva fumaça queria lhe dizer é que não era mais possível viver como quem lê um romance do qual já conhece todos os detalhes do final.

(Dis)paridades

19 Jul

Sorria indecentemente. Já não era mais novidade. Era mesmo um desaforo esperado. Desejavam que assim fosse para sempre. A camisola pendurada na maçaneta da porta balançava com o vento frio que insistia em manter os corpos bem próximos. Em silêncio, agradeceram a dádiva que aquele frio se tornara. Era uma questão de sobrevivência, nesse caso, afetiva.

Acordaram e ficaram ali, na cama, já fazia uns cinco minutos ou duas horas. Ela levantou e desprezou a camisola. Pausa nessa cena. O piso gelado a fazia caminhar na ponta dos pés, como se estivesse de salto, e isso deixava o contorno das suas pernas ainda mais firme. Uma mulher de salto e praticamente sem roupas, correndo como uma menina sem compromissos e com medo. Quando abre a porta e a claridade do dia invade o quarto, é preciso lutar contra a luz para não perder a imagem da sua silhueta longilínea, bem desenhada ao longo dos seus 20 e tantos anos, marcada apenas pela calcinha que usava, tão firme como seus passos.

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Ajustou a sintonia do rádio. Queria mesmo era ajustar a sintonia da sua vida. Sentia-se amargurada nas suas poucas e pobres lembranças. Queria sentar-se em frente ao computador, e ao sentir seus dedos passeando pelo teclado, produzir um novo rumo para sua torpe existência. Era mesmo muito angustiada. Nada a satisfazia. No seu aniversário de 30 anos, preferiu ficar em casa a ter que ouvir todas aquelas mesmas frases de sempre.

O carro parado, o sinal vermelho, o rádio cantando qualquer coisa numa escala de sol, a camisola na maçaneta, as pontas dos pés, a panturrilha saltando, a luz do sol doendo os olhos, a dor, o silêncio, a dor maior. Horas se transformariam em dias e dias se transformariam em meses para que ela pudesse entender aqueles poucos minutos. Sente-se sufocada, abre as janelas, e a brisa gelada – dessas que foram criadas só para os amantes – empurra algumas lágrimas dos seus olhos.

O sinal verde avisa que o trânsito deve seguir. Ela não estava nem aí para o trânsito. Ela não estava nem aí. Queria estar lá. A sintonia já estava ajustada, queria era entender a freqüência.

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Tropeçou no canteiro. Desde o último ano escolar que não corria. Seu coração batia mais forte, e mais forte, e mais forte e mais forte. Ela não sabia, mas ficava linda com aquele ar desesperado. Quando parou sentia seu estômago embrulhado, numa clara sensação de que aqueles eram seus últimos minutos. E de alguma forma realmente eram. Nas suas mãos somente uma carteira de cigarros. Acendeu o último deles quando já não poderia mais se esconder, de si mesmo. Encolhida no ladrilho de um banheiro sujo sentia-se mais limpa do que nunca.

Teve pouco tempo para pensar antes que o socorro chegasse. Não chorou feito criança. Preferiu chorar feito adulto. Preferiu chorar culpando-se pelas suas escolhas e catastrofizando o futuro. Quando percebeu novos olhares, se encolheu de supetão e deixou seu corpo sentir os toques firmes daqueles homens vestidos de branco.

Ela se viu, mais uma vez, fitando o teto. Estava ali há 5 minutos ou dois dias, não sabia dizer com precisão, mas desconfiava que já fazia muito tempo.  Ao lado direito, uma mangueira levava alguma coisa até o seu braço. Não sabia dizer o que era. Os braços contidos na cama com um nó forte só a deixavam fitar o teto.

Sua pior sensação naqueles dias foi a que sentiu quando, ao tentar levantar, pôde ver todos os seus pertences embrulhados no simples plástico. Uma calcinha branca manchada pelo chão de um banheiro mais limpo que o seu viver. Na maçaneta daquele quarto não havia uma camisola e o vento frio que insistia em entrar pelo vão da porta, já não convidava mais para um abraço, mas sim para o desespero.

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Ela abriu um desses livros de auto-ajuda para tentar esquecer. Visitou algumas mulheres fáceis. Experimentou o bem-estar etílico. Não é preciso dizer que de nada adiantaria. Seu vício já era outro.

Engana-se quem pensa que se tratou de uma paixão. Seu vício era entender aquela mulher. Porque levantou com aquela andar nipônico, anunciando um cheiro de café matinal, para em seguida lhe roubar uma carteira de cigarros e correr seminua pelo bairro?

Vício incurável, já que ninguém nunca soube dessa história. O telefone que ela tinha passado foi atendido somente uma vez, por um homem de voz cansada e pouca receptividade. A ligação tinha sido breve o suficiente para que faltassem todas as perguntas. No fundo só pôde ouvir a voz dessas secretárias de 40 e tantos anos dizendo: “Sr. Marcelo, o doutor atenderá sua esposa.”

O nosso amor a gente inventa…

13 Jul

Quem os apresentou foi uma amiga. Agenor era o príncipe encantado da maioria das mulheres solteiras de meia-idade: pós-graduado, bem sucedido profissionalmente, bilíngüe, sorriso largo como os ombros e uma forma de se movimentar tão sensual quanto uma música francesa. Daniel era meia década mais jovem e uma década mais imaturo. Era músico e só por isso, já dominava o canto da sereia. Esbanjava jovialidade e aquele despojamento que nos dá vontade de viver da mesma forma. Carol, a amiga, desejava os dois da mesma forma, apesar de saber da homossexualidade de Agenor. Desejava que eles se tornassem amigos, já que um deles gostava muito de música e o outro precisava se tornar um pouco mais sério.

É desnecessário dizer que depois daquele primeiro olhar, tudo que eles não seriam era bons amigos. Agenor diz que nunca esquecerá quando, minutos após terem sido apresentados, Daniel toma o violão e canta Chico: “só que num relance seus olhos me chuparam feito zoom…” Daniel diz que nunca esquecerá o jeito como Agenor sorri após ajeitar seu cabelo com a mão, especialmente pelo perfume que surge naqueles momentos, como se saíssem do branco do seu sorriso.

Carol nunca soube desses detalhes. Na verdade, nem soube que eles se envolveram. Ficava muito feliz sempre que os via juntos, e se orgulhava de ter contribuído para uma amizade tão próxima. Nunca entendeu porque eles se afastaram. Daniel também nunca entendeu. Agenor disse que para ele não era mais possível suportar. Os dois sofreram, apesar de Daniel ter se sentido mais culpado por tudo.

No derradeiro encontro, Agenor disse que já tinha vivido e suportado agruras demais para manter uma relação como aquela, usando a expressão “no armário” para classificá-la. Daniel nunca esquecerá a forma como Agenor tratou com deboche seu argumento de que para ele era muito difícil assumir aquele relacionamento. Daniel segue a vida encontrando outros ‘Agenores’ e alguns ‘Daniéis’. Agenor diz que adora Chico Buarque, mas preferia ter ouvido Daniel cantar Cazuza.

Então, nos falamos… Beijos!

5 Jul

O olhar estava paralisado, fitando a água da torneira que escorria pelo ralo. Tudo que sua consciência não continha era a preocupação com a água que se perdia. Nunca gostou de acordar cedo e não era a partir daquele dia que passaria a gostar. Enquanto escovava os dentes, a água escorria, o vapor do chuveiro ligado começava a tomar conta do banheiro. Seu corpo ainda estava morno, recém saído da cama. Cospe o creme dental, lembra-se da torneira, tira a única peça de roupa e entra no chuveiro.

Seu mau humor típico dos primeiros minutos da manhã não estava tão exacerbado. Pudera, depois de viver aquela noite com ares de novelas de Jorge Amado é natural que o corpo lhe dissesse que a vida também tinha prazeres. Experimenta a temperatura do banho colocando o pé debaixo do chuveiro. Como sempre, a água está quente demais. Abre um pouco mais o registro e entra no banho, de uma vez só. Pudera, o frio daquela manhã e as gotinhas de água que respigavam do piso, já começavam a causar algum arrepio.

O protocolo inicia da mesma forma: a água alcança primeiramente as costas, como se no chuveiro buscasse o aconchego da noite anterior. Fica paralisado, a ducha fixa na nuca. O pensamento divaga entre os compromissos do dia, e se perde no fim do dia anterior. Lembra dela chegando na sua casa, vestida a rigor, com a sensualidade de um jeans justo e o despojamento daquela blusa que marcava de leve os seios e deixava a mostra um único ombro. Quando lembra da sensualidade com que ela sorria, sente seu corpo se excitar. Há tempos que alguém não lhe causava tantas lembranças.

Nos últimos tempos, elas já não lhe tomavam a memória. Em tempos de amores líquidos, de entregas gratuitas, as descobertas sem surpresa já lhe aborreciam mais do que o agradavam. A água do banho molha os cabelos e escorre pelo corpo empurrando a espuma do shampoo. Ligar para ela logo pela manhã seria um grande equívoco. Ela era daquelas mulheres independentes, dessas que se entregam na medida certa. Não aceitava os comentários dele sobre o filme que assistiram, abraçados, e os discutia com uma retórica tão limpa e sutil quanto seus gestos.

“Sou um idiota!” Racionaliza enquanto o sabonete exorciza todas as possibilidades dele sentir novamente o perfume dela. Era mesmo um idiota por pensar que aquele banho levaria consigo seus pensamentos. “Vou mandar uma mensagem no início da tarde, apenas por educação.” Se fizesse, sabia que não era por educação que o faria, mas precisava acreditar que sim. Das poucas outras vezes que sentira isso, era assim que havia resolvido. Apaixonar-se não era seu objetivo naquele momento. Havia muito o que ser feito. Questões urgentes aos quais só seriam prejudicadas por uma paixão efusiva.

A mão direita posta sobre o registro do chuveiro e lembra-se que precisava se barbear. Há 3 dias que não o fazia, a pedido dela. E agora? E se houver um novo encontro? Lembra de quando, abraçados, ouviram Gal cantar “eu, você, nós dois…” e ela aproveitara o intervalo entre as estrofes para dizer que a barba dele a deixava arrepiada. Lembra de como Gal cantou com maior intensidade durante o beijo que seguiu o comentário.

Tira a barba e se corta ao barbear. Apenas mais um corte. Era o que ele poderia fazer para se vingar.

Essa não foi sua última lembrança durante todo aquele dia. Os dias seguintes também trouxeram lembranças, acentuadas nas noites. Já haviam músicas que ele não poderia ouvir sem lembrar daquela noite. Não ligou para ela no dia seguinte. Nem nos próximos. Queria mesmo se afastar. Ora, por qual motivo se reconheceria naquela paixão? Talvez ela tenha esperado uma ligação, uma mensagem, algum sinal de que pra ele também tinha sido ótimo. Ela se resguardou na crença de que os homens têm medo de mulheres como ela. Ele se escondeu atrás daquele corte. Se houve um novo encontro não se sabe. Acho pouco provável porque ela não aceitaria ser tratada daquela forma e porque ele não colocaria a risco seu aparato de certezas.