Quem é você?

29 Jun

Fez com que eu chegasse bem perto, deixou que eu sentisse seu cheiro e depois, num ato só, se afastou com o desespero de uma criança com medo do escuro. E foi assim, sem saber por quem foi, mas tendo certeza pelo que veio, que me deixou na expectativa de um fascínio ainda maior. Sem entender que riqueza guardavas na tristeza de um sorriso, insinuei um esbravejo pedindo por reação, mas calei. Como conhecer alguém que não se afasta para sempre, mas não se aproxima o suficiente pra ser visto?

Tem dias que te vejo tão perto que posso saber o realmente pensas. Em dias como esses, de mansidão, entendo porque respiras. Olho longe e nada me assusta, sei pra onde queres ir. Melancólico de tão passional e seguro, sinto as horas permanecerem calmas, claras, livres. Dias de excitações sábias como as de Monet.

Sem explicação, sem rumo e sem remorsos, te distancias. Sei que desejas deixar esse vazio. Sei que queres, outra vez, aquele silêncio eloqüente que me ensina o que não deveria ser dito. Paraliso o olhar em qualquer ponto no teto, esqueço a música que já parou de tocar e me perco entre digressões e devaneios. Quem tu realmente és? Qual teu desejo?

Quando te vejo novamente, já não és mais o mesmo. Trazes o calor de Pablo Neruda e escondes a frieza de Saramago. Já não sei de que modo falar, nem o que queres ouvir. Devo mesmo me preocupar com isso? Mais uma vez? Das sacadas da minha casa sinto um amanhecer torpe de um dia que não clareia. Um sofrimento plácido e sujo se cria com um paradoxo de querer sair daqui para voltar ao mesmo lugar.

Saudades apenas sinto dos dias em que te mostras tão empolgante que me fazes crer que os sentimentos de outrora, jamais voltarão. Forte, firme e fulgaz, finges fábulas que fulminam no fácil fazer de uma faísca fria. Se me desconcertas, se me iludes, é porque me deixo levar no domínio do teu olhar.

Dias em que fazes crer que eu nunca te encontrei, realmente. Dias que sei  que responderei a cada pergunta com a exatidão de um matemático, a prudência de um político e a empolgação de uma criança que aprende o be-a-bá. Queria mesmo te encontrar em outra pessoa. Não queria saber que você é exatamente quem não sei que sou. Fico na espera da sorte dos poetas, que dizem encontrar um amor pra toda a vida! Do lado de cá, desejo apenas encontrar a mim mesmo. Para, ao menos por um segundo, pausar essa tormenta e degustar do apogeu.

Sobre as dimensões da sexualidade

29 Jun

Ocorre que desde meu último post, fiquei pensando sobre o que escrevi, sobre o que faltou ser escrito, e o que ficou nas entrelinhas. Ao revisitar as diversas formas como a diversidade é vista ao longo da história para compreender como ela é tratada na sociedade, precisei passar – inevitável e felizmente – pelos diferentes olhares que são lançados sobre o fenômeno da diversidade.

De forma inspiradora, mais uma conversa com o @avsjunior79, me colocou frente à questões que me pareceram carentes de discussão, em especial, sobre como a sexualidade é – mesmo que não percebamos – vivida para muito além das questões individuais.

Esta reflexão me parece complementar a discussão anterior, uma vez que para compreender as determinantes que mantêm o preconceito é preciso compreender como o embate com a diversidade é construído, mas também, como as diversas dimensões da cultura humana retaliam as possibilidades de mudança.

A construção do psicológico, isto é, a crença que se constituiu principalmente ao longo dos últimos dois séculos de que há, no humano, uma entidade psicológica que se relaciona com o corpo físico, traz consigo chagas bem demarcadas do dualismo cartesiano (divisão mente-corpo) e do liberalismo econômico.

Neste contexto, a sexualidade passa a ser vista como um fenômeno puramente psicológico e/ou fisiológico, entendido e tratado com o eufemismo da “orientação sexual”. Ora, pensar orientação no contexto contemporâneo é pensar que há um ato educativo (ou pedagógico) que direciona essa dimensão do humano. É preciso, portanto, desconstruir os chavões e as melindres em usar termos como orientação sexual, homossexualidade, homossexualismo e assim por diante, resguardadando, é claro, o respeito histórico que cada um desses termos possui no caminho para a superação do desrespeito às diferenças. Mas isso é assunto para outro tópico.

Agora, é tempo de pensar que a sexualidade é construída para muito além do desenvolvimento individual. Contextos sociais, políticos, ideológicos e econômicos se colocam na realidade de cada um dos sujeitos e, ao mesmo tempo, agem sobre o desenvolvimento e a vivência do fenômeno sexual.

Um dos determinantes históricos da Revolta da Vacina (1904) residia no fato das mulheres precisarem mostrar seus braços para os agentes vacinadores, homens desconhecidos, com quem não tinham intimidade para ver essa parte do corpo da mulher. Pensar a sexualidade dessas mulheres é completamente diferente de pensar a sexualidade da Mulher Melancia, por exemplo. Não se faz aqui um juízo de valor, mas sim, uma descrição histórica dos determinantes sociais que pontuam a vivência daquilo que chamamos sexualidade.

“O testemunho de uma mulher não é, porventura, equivalente à metade do de um homem? (…) Isto se dá por causa da deficiência da mente dela (i.e. das mulheres).” (Referência). Numa sociedade marcada pelo totalitarismo religioso, transgredir as normas marcadas pelo livro sagrado não representa apenas a subversão de uma norma social, mas sim, a possibilidade de colocar em risco a manutenção do status quo de uma sociedade politicamente organizada. Em especial, nas sociedades teocráticas, a superação dos dogmas sexuais pontuam o risco de uma desorganizacão político-social e a eminência de um embate para a posterior instauração de uma nova ordem social.

A sexualidade é vivida também como um fenômeno ideológico influenciado por filosofias do bem e de belo. Quando pensamos sexualidade na sociedade brasileira contemporânea, inevitavelmente, cairemos nos julgamentos morais de certo ou errado. Esses julgamentos tem como tese subjacente a ideologia posta no grupo social e mantida por diversas instituições, entre as quais opto por destacar a escola. Para exemplificar, de forma breve e objetiva, lembro a educação sexual que as escolas brasileiras tem oferecido. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a educação sexual deve ser um tema transversal tratado durante todos os anos letivos. No entanto, quando ocorre – infelizmente, a abrangência é muito pequena – o que vemos acontecer, é uma educação sexual biologicista, carente de discussões de gênero, por exemplo. A educação sexual oferecida nas escolas brasileiras, é uma educação sexual para heterossexuais, que tem ensinado a colocar camisinha e mistificado o ato sexual através da apresentação das diversas doenças sexualmente transmissiveis.

Se existirem dúvidas de que a sexualidade também é um fenômeno econômico pesquisem quantos milhões de dólares são movimentados pela indústria da pornografia, ou então, verifiquem o crescimento do mercado voltado para o público gay.

Por hora, finalizamos este texto com a pretensão óbvia de apenas introduzir uma discussão que é muito mais ampla e que está embasada nas verificações empíricas do cotidiano de cada um de nós. No próximo post, utilizaremos a homossexualidade para discutir como a homofobia se mantêm não apenas em concepções e crenças individuais, mas também, nas dimensões que apresentamos ate aqui.

Sobre a humanidade, a diversidade e o preconceito

29 Jun
Espera-se que a primeira postagem de um blog seja esclarecedora. A primeira postagem sempre tenta dar conta daquilo que o blog discutirá. Quase como a definição de uma linha editorial. Desta vez será um pouco diferente, ou não. O direcionamento deste blog será definido a posteri. Por enquanto, o que sei é que há coisas que carecem de discussão. As mais diversas estão entre elas.
Há alguns dias, passei pelo blog do @avsjunior79 para comentar sobre o problema do pedido de tolerância aos homossexuais. Comentava que pedir por tolerância é pedir por segregação e indiferença. Desde então, tenho refletido sobre o paradoxo da diversidade humana, sobre a humanidade e sobre o preconceito. De forma geral, quais as condições de possibilidade que se instauram no humano para que a diversidade seja posta como aquilo que deve ser olhado com os olhos da desconfiança?
Ser mentor de um personagem no twitter é pensar sobre estes aspectos à cada postagem. É se afastar da racionalidade de uma posição bem definida na sociedade e usar as lentes de um personagem que é desafiada a viver um mundo onde é a exceção à qualquer tipo de regra.
O fato é que a história do humano, seja ela vista pelo viés antropológico, sociológico, evolucionista ou cognitivo, está marcada pelo reconhecimento da diferença, sua discriminação, o embate entre os diferentes e a tentativa de superação.
A antropologia passou anos discutindo o conceito de etnocentrismo, do fenômeno do choque cultural, do embate entre as sociedades marcadas pelo totalitarismo religioso, e assim por diante. O etnocentrismo nunca foi superado e é declarado contemporâneamente com novas roupagens, entre elas, a descrença de que é possível encontrar vida inteligente para além do nosso planeta.
O melhor exemplo de fenômenos sociológicos que marcam a luta contra a diversidade, do meu ponto de vista, é o holocausto. Caetano Veloso, sabiamente, escreve que “Narciso acha feio o que não é espelho”. O holocausto, se baseia em fundamentos pseudocientíficos (a Teoria da Eugenia) para fundamentar uma barbárie que traz como crença central a concepção de que, com a erradicação da diversidade é possível construir um mundo melhor.
Charles Darwin, resguardados os direitos e louvores como pesquisador, reproduz essas crenças quando afirma que a evolução está fundamentada na sobrevivência dos mais aptos. Isto é, levando em consideração uma totalidade populacional – que mais tarde foi generalizada para o evolucionismo sociológico – há, dentro dessa totalidade, indivíduos mais aptos e que, portanto, estão em melhor posição em relação aos demais. Darwin marca, mais uma vez, a questão da diversidade como algo que estabelece diferenças.
Do ponto de vista cognitivo, temos que as neurociênias e a psicologia surgem, mais recentemente, discutindo tal fenômeno, mas, paradoxalmente, estabelecendo critérios que diferenciam sujeitos e, nesse ponto, criam hierarquizações sócio-culturais. Basta pensarmos, por exemplo, na concepção de QI. Basta pensar na concepção de psicopatologia. Basta pensarmos na frenologia e na idéia de que há pessoas que possuem um sistema nervoso “melhor capacitado”.
Enfim, a questão que inicio a discutir – e que ainda me causará muita reflexão – é que o fenômeno do preconceito não está posto apenas às questões sexuais (evidentemente), e que, tal fenômeno encontra seus determinantes na construção social do humano. Talvez estejamos vivendo um momento de utopia coletiva ao pensar que haverá um dia em que a humanidade não terá preconceitos. O fato é que muitos aspectos serão superados – o preconceito aos homossexuais, por exemplo – no entanto, ainda me parece que novos temas surgirão, novos grupos sofrerão retaliações e assim a humanidade segue. Imperfeita. Mas quem o é?